As joias da coroa
(Editora Alaúde, selo Tordesilhas, 2011) é o terceiro volume da série
de aventuras do investigador Douglas de Medeiros (os outros são A boneca platinada, Editora Girafa, 2007, e O comando negro,
Editora Globo, 2009). Trata-se de um romance policial de intensíssima
ação, cujo protagonista, um incorruptível investigador lotado num
distrito policial de Campo Grande, região barra pesada do centro-sul da
cidade de São Paulo, é um solteirão cronicamente sem dinheiro, que
malvive num apartamento empoeirado, onde “as garrafas e latinhas de cerveja se amontoavam na pia e no banheiro e o cesto de lixo regurgitava de papel higiênico”.
(...) Caracteriza-se esse policial duro e algo violento pela coragem física
e tenacidade, que, combinadas com a capacidade de recolher e coordenar
informações, o conduzem a êxitos nos quais, com frequência, participa
uma inspiração – o que os profissionais chamam “o instinto do tira”– que
nem ele mesmo sabe de onde provém. Um tanto sentimental e dotado de uma
capacidade inaproveitada de reflexão, Medeiros é um diamante bruto,
pois embora inteligente e formado em Direito, tem pouca cultura e não lê
mais que romances policiais do gênero noir, como os de Raymond Chandler
e Dashiell Hammett. (...) Quando a mesma
cliente lhe lança um desafio, ao sugerir que poderia achar uma pista num
conto de Edgar Allan Poe, Medeiros não se faz de rogado, compra em
seguida uma edição dos contos de Poe e lê "A carta roubada",
onde aparece o detetive particular C. Auguste Dupin, considerado por
alguns autores como um predecessor de Sherlock Holmes. Medeiros é,
assim, um ser contraditório, que sobrevive nadando contra a corrente,
numa sociedade descrente da justiça, graças à sua integridade pessoal e
ao seu sentido de humor, cínico e ferino, cujo primeiro alvo é ele
mesmo: “Vivia sozinho, na companhia de aranhas, percevejos e baratas
que tinham a vantagem sobre as pessoas de, pelo menos, não exigirem
nada de mim.” É contra esse pano de fundo que se desenrola o caso em que Medeiros,
injustamente suspenso de funções por ter matado um assaltante em
legítima defesa, procura ajudar um amigo, investigando por conta própria
o desaparecimento de um brilhante valiosíssimo. As deploráveis
circunstâncias de sua vida pessoal, aliadas a um relacionamento
simbiótico entre policiais e criminosos, contribuem para criar uma
situação de permanente tensão, pontilhada por cenas de realismo brutal: “Ouvi
um disparo e senti como se um ferro em brasa me queimasse o antebraço
esquerdo. Sem pensar duas vezes, saquei o Colt e atirei à queima-roupa. A
cabeça do vagabundo estourou que nem um melão. A sangueira esguichou,
me sujando a cara, o peito.” A narrativa, em primeira pessoa e tom
coloquial, avança em ritmo acelerado, com frases rápidas, combinando
mistério e detecção com sequestros, chantagem, corpos que desaparecem,
tiroteios e perseguições em alta velocidade na calada da noite, numa bem
montada cavalgada de suspense e surpresas que nos obriga a continuar a
leitura até um desfecho tão emocionante quanto inesperado. Milton M. Azevedo. Fonte: http://www.debatesculturais.com.br/as-joias-da-coroa/.
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